sábado, 2 de março de 2013

Carta aberta

ao senhor João Salgueiro e tantos outros...
Em dia de manifestação, a minha revolta, mesmo tão longe, é enorme.
Revolta por ver homens feitos a chorar por não saberem como vai ser o futuro. Eu sei que outros também não sabem como vai ser, mas ver um homem de barba rija a chorar... dá-me cabo do sistema!

Mas a revolta ainda ficou maior quando ouvi duas notícias bárbaras!
Uma mostrava uma senhora necessitada de rendimento social que recebeu a bela quantia de 8,91 euros, sim, 8 euros e 91 cêntimos. Eu sei de uma família que recebe de rendimento social e apoio e mais não sei o quê que dá a módica quantia de 700 euros. Sendo que na família de quatro elementos um trabalha a 100% (declarado) e o filho mais novo recebe TUDO  da assistência social ou de quem é de direito, que os pais trabalham sem declarar nada (ou seja, quanto dinheiro entra mesmo naquela casa?!?)... isto... revolta-me...  Revolta-me que esta família tenha gastos como televisão por cabo, telemóveis topo de gama e máquina de secar roupa (SECAR!!!).

A outra notícia tinha a ver com o político/economista com nome de toureiro. Essa deu-me urticária!! Ele tem razão, pode-se ir limpar matas. Ele tem razão, não é vergonha nenhuma um professor servir à mesa, um economista tratar de animais. Não, não é vergonha, não senhor! O senhor tem toda a razão.
Ou então não...

Não seria vergonha se uma pessoa não tivesse investido tempo e dinheiro numa formação que depois vai pleo cano (para isso começavam a limpar matas aos 16 anos, imagine-se o dinheiro que se ganhava [o que era poupado pela falta de estudos e o ordenado de trabalho]!!) Não seria vergonha se o dinheiro que se recebe não fosse ofensivo, como o cheque da tal senhora (só quem está snetado num escritório todo o dia é que não sabe que 400 euros para limpar matas é um preço muito baixo). Não seria vergonha se o ordenado (mesmo que pequeno) não fosse sugado em impostos. Não seria vergonha se a assitência social (médico, escola dos filhos, justiça, etc. e tal) fosse real.

Assim, senhor João Salgueiro, se me garantir um contrato justo e honrado. Se me garantir um ordenado que me permita ter o mesmo nível de vida que eu tenho aqui: casa modesta, roupa [os sapatos costumam ser caros porque preciso que sejam confortáveis, mas também os uso até estarem desfeitos e não compro roupa de marca] comida, um livro ou um CD de vez em quando, luz, internet e telefone (não sou de fazer muitos telefonemas, mas dá jeito ter um telefone ou telemóvel). Se me garantir assistência médica eficiente para a minha esclerose múltipla. Se me garantir justiça social, segurança e tanta outra coisa que eu acho que tenho direito. Se me garantir isso... eu garanto-lhe que me meto no primeiro avião que me aparecer à frente e vou limpar matas, casa de banho ou outra coisa qualquer de Segunda a Sexta, oito horas por dia. Sem stress nenhum!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Consegue garantir-me isso? Se não consegue, não me critique por ter saído do meu país para limpar casas-de-banho por um ordenado que me permite VIVER. Não critique quem sai do país para procurar melhores condições de vida. Não critique quem não sai do país, mas que se recusa a limpar matas por menos de uma "merreca".



Jorge Palma, Grândola, Vila Morena

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