sábado, 27 de abril de 2013

É trabalho, muito trabalho!

Não sou uma pessoa de sorte. Jogo sempre no Euromilhões e nunca me saiu mais do que 20 francos. Tirando umas moedas que encontro de vez em quando no chão (já achei uma moeda de 1 franco no meio da multidão da Street Parade!), nada me cai no colo, nada me aparece à frente por acidente.

Hoje andava eu de volta do pão (o choninhas do meu chefe gosta de mandar para lá...), quando oiço alguém a cumprimentear-me em português. Viro-me e vejo que era uma conhecida dos meus pais. Se falei com ela umas três vezes antes do dia de hoje, foi muito. Queria-me perguntar algo sobre a promoção de um determinado artigo. Mas só disse bacoradas!

A primeira foi perguntar sobre a promoção que só começa na próxima semana. Os folhetos são para várias promoções, mas também várias datas e isso está lá escarrapachado!!
A segunda foi mostrar que não sabe falar, nem português, nem alemão. Ah vem no folheto que este produto está em acção. Eu tenho que explicar: aqui usam-se várias palavras quando se referem aos descontos. As mais comuns são Rabatt (alemão) e Aktion (alemão suíço). Tuga que se preze fala em produtos que estão em acção. Eu não ligava nenhuma a isto, nem viria para aqui escrever sobre ela (é tão banal ouvir isto que eu já não ligo) se ela não dissesse um terceiro disparate... Então, achei que poderia escrevê-los todos.

A terceira asneira foi quando ela perguntava se eu trabalhava ali. Não, estou aqui a mexer nos botões do forno porque me apetece. E, não contente, comenta: ah que sorte. Eu tive vontade de me voltar para trás e partir-lhe os dentes com brilhante que ela tem (já está fora de moda, não?!?!).

Eu fui para aquele supermercado, por mérito. Mandei o meu currículo, fiz uma mini-entrevista ao telefone. Fui fazer um dia de prova. Fiz mais duas entrevistas presenciais. E depois assinei contrato. E, mesmo assim, estou em período de experiência. Eu estou ali porque me mexi.

Mexi-me quando cheguei cá e comecei a aprender alemão. Mas lá está, eu preferi comprar dicionários, ela prefere colar brilhantes foleiros nos dentes (aquilo dá saúde ao dente?!). Eu não aceitei as condições dos trabalhos anteriores e fui à luta. E garanto-vos uma nega numa candidatura de trabalho é tão frustante em alemão como em português. Eu não me sentei à espera que me dessem coisas. Eu não tive sorte, eu trabalhei. Eu trabalho todos os dias para conseguir o que quero, embora a maior parte das vezes fique muito aquém do que almejava (devo sonhar muito, ou ter muito azar). Tudo o que tenho (pouco ou muito, bom ou fraco) foi conseguido por mim. Pelo meu trabalho, pela minha preserverança, até pela minha casmurrice.

Dá-me uma raiva... é que não é só esta, há muitas mais pessoas a pensarem isto de mim e principalmente da minha mãe. Pois como ela trabalha nas limpezas e tem os direitos legais todos sem problemas e elas não... mas elas trabalham a negro... assim, é impossível irem para a frente...

Esta gentinha ainda não meteu na cabeça que a sorte... somos nós que a fazemos.

4 comentários:

teresa disse...

«a sorte somos nós que a fazemos», é certo, Luísa. Quem isso não vê, não vai longe. E não ver isso passa - para além de não batalhar -por só se ter curiosidade por coisas que não interessam. Mas é isso que também explica as enormes audiências dos programas da treta, quando há desgraceira e exposição da privacidade, isso é que interessa as hostes.

Pode parecer uma opinião snob, mas infelizmente é uma constatação, digo eu, que conheço gente que estudou e estagnou e outras pessoas que, não tendo passado pela mesma experiência, canalizam a curiosidade naquilo que pode contribuir para uma vida melhor, algumas até espantam, pois com o seu interesse são mais cultas do que muitos com diplomas e certificados...


A coisa boa no meio disto tudo (digo eu) é quando se atinge uma fase em que tudo o que é básico no comportamento dos outros, coisas como as que refere noutro post mais recente sobre a simples coscuvilhice relativa a detalhes da vida pessoal de cada um, já é por nós tratado como na BD da Mafalda «resvala na couraça da nossa indiferença» :)

Luísa disse...

Sabe, teresa, o meu problema é que não consigo ficar indiferente. Eu sou daquelas que defende que ninguém tem culpa de ser ignorante. Mas tem culpa de continuar a ser.
Odeio gente estúpida. Perturba-me imenso. Porque uma coisa é dizer palavrões ou parvoíces de vez em quando. Beber um copo a mais que faz estalar o verniz. Não ter conhecimentos nenhuns. Ou outras coisas com "menos nível". Outraa coisa é fazer bandeira disso. "Sou ignorante, sim. E tenho orgulho!" Não, infelizmente não consigo ser indiferente.

É que é a ignorância que nos arrasta para o fosso. E uns ignorantes arrastam outros. E chega a uma altura em que os ignorantes arrastam os "não ignorantes". (Para mim, POrtugal está onde está porque pouca gente se deu ao trabalho de pensar!)

É muito frustante ver como alguns suíços e outros estrangeiros me olham por aqui. Eu tenho que provar constantemente, em todos os contextos, que não sou como as outras portuguesas. Chega a uma altura em que é cansativo ver a enooorme admiração dos outros em relaçãpo à minha evolução no alemão, por exemplo. Eu sou inteligente, mas não sou o génio da lâmpada mágica. Ou o caso de eu ter perdido o trabalho na estufa. Se não me tomassem como todos os outros portugueses, submissos e ignorantes, teriam mandado a outra vaca (não tem outro nome) embora, eu teria ficado no meu trabalho e muita coisa seria muito mais fácil.

Poderia haver mais gente como eu, mas dá trabalho. Tem mais piada, ou pelo menos é mais fácil, ver os tais programas que a Teresa menciona do que aprender umas palavras no dicionário para fazer calar o chefe (ou qualquer outra pessoa)...

teresa disse...

Talvez não me tenha explicado bem... A ignorância não me deixa indiferente, deixa-me, sim indiferente, a coscuvilhice . O meu pai deixou-me bons ensinamentos, um deles foi «a quem tudo quer saber, nada se lhe diz» :)

Luísa disse...

Ou se cahar fui eu que percebi mal. Era tarde e eu tenho andado com insónias (acho que é este tempo maluco!). MAs agora percebi melhor a ideia.
A minha mãe diz a mesma coisa que o seu pai. E concordo plenamente! :)