domingo, 14 de agosto de 2011

Love, Freedom, Tolerance & Respect

Eu ainda não tinha 12 anos quando ouvi pela primeira vez "música de discoteca". As raparigas mais velhas que moravam comigo andavam na idade de frequentar discotecas, de festas de finalistas e afins. Como é óbvio, isso acabava por ir para casa e quando elas não tinham permissão para sair à noite (a maior parte do tempo), faziam-se pequenas discotecas na sala de televisão (as freiras nunca se opuseram, só queriama sala arrumada no fim). Este primeiro contacto aguçou-me o apetite e fui procurando nomes de DJs, de músicas, fui comprando compilações, ouvindo programas de música electrónica. E se o mundo da electrónica é vasto...

Depois desse primeiro contacto, venho passar férias à Suíça, em 1995, e descubro a Street Parade. Namorei o evento pela televisão. Mas até 2005 foi um amor completamente proibido. A minha mãe não me deixava ir. Depois de atingir a maioridade eu até poderia ser arrogante e ir contra ela, dizendo que já era crescidinha para saber o que fazer, mas... estragar as férias por causa de um dia?!? Continuei com a televisão e com os CDs. Até que num sábado 13, tal e qual como este ano, eu fui pela primeira vez ao evento mais louco do ano.

Ia receosa. Não conhecia a língua (os suíços falam um inglês um pouco duvidoso), o companheiro que me foi arranjado era bem mais velho que eu e nunca nos tínhamos visto antes (não pensem coisas, era o irmão de uma patroa da minha mãe que queria ir, mas não queria ir sozinho. É que a mulher dele... neste fim-de-semana faz-lhe sempre o manguito e vai para as montanhas com as amigas porque não gosta desta festa). Tinha receio pela segurança (uma coisa é ver sentada em casa, outra é andar no meio daqueles milhares de pessoas). E, mais que tudo, tinha receio de ficar desapontada. É que, às vezes, criamos uma imagem muito errada da realidade...

Mas no fim... expectativas superadas em larga escala... vinha eufórica. Louquinha!! O meu irmão só berrava: Já não viste isso ao vivo?!?! Por que raio temos que ver isso na televisão?!?! Eu, como é óbvio, ignorava e fazia comentários a todas as imagens que me passavam à frente dos olhos...

Voltei em 2008, com a minha mãe a tiracolo. Ela dizia que queria ver o espetáculo, mas na realidade queria tomar conta de mim (como se as coisas más não acontecessem na mesma! e no fim ficou fã... uma cota com mais de 50 anos que nunca gostou de confusão deste género!!). 2009 fui sozinha, pois a minha mãe já tinha visto que afinal não era ssim tão perigoso e os meus conhecimentos não apreciam este tipo de festa. E eu prefiro ir sozinha do que levar gente a fazer frete. 2010 a minha mãe voltou comigo (como se ela tivesse super-poderes, mas... estava assustada pela tragédia de Duisburg).

Este ano voltei sozinha. Queria apreciar a reprodução de um dos carros da primeira edição em 1991 (a primeira foto, muito peace and love, não acham?). Queria vibrar com a energia do meu alemão favorito. Um ano jubilar tem que ser bem gozado, mesmo que tenhamos um pé a suplicar para estar quieto com uma compressa de gelo em cima...

Quando vinha para casa pus-me a pensar em milhentas coisas. Em como o Paul van Dyk é bom, em como o S. Pedro, no fim de tanta chuva, tinha sido um fixe e nos tinha dado 27 graus e um Sol velado por nuvens finas que me queimaram o nariz, mas não me deixaram abafar. E mais que tudo... vinha a pensar no preconceito das pessoas (de Zurique a casa são cerca de 30 minutos, dá para pensar em muita coisa).
A pensar em como o pessoal que faz a Jesus Parade no mesmo dia que a Street Parade está para a provocação. A pensar em como muita gente que nunca pôs os pés na Street Parade, ou num evento semelhante, julga quem lá vai.

Não, não são todos santos, mas... Havia gente a pôr protector solar (desta vez esqueci-me!), com protecção para o Sol na cabeça e nos olhos e até protecção nos ouvidos (sim, o primeiro carro de todo o cortejo é uma pequena carrinha da organização a distribuir tampões). Ou seja, gente com alguma consciência básica.

Se me vêm argumentar que é uma pouca vergonha no que diz respeito às roupas... santa paciência... isto é uma espécie de carnaval de Verão. O pessoal solta-se por um dia, mas não quer dizer que seja tudo ordinário o ano inteiro. Além disso... o Carnaval do Rio é bem pior. Pensando bem... o Carnaval de Ovar consegue ser bem pior... além de lá ser no Inverno, ontem eu só vi uma mulher em topless (quase de certeza que havia mais, mas só vi uma!).

Depois vem o argumento das drogas e dos perigos da saúde e da segurança.
Ora bem: Tal como eu, havia muita gente e beber chá fresco. Foram presas 73 pessoas. Em 900000... parece-me pouco e, segundo o meu irmão, já prenderam mais num certo evento com menos visitantes que se realiza no Alentejo.
Foram assistidos pela equipa médica cerca de 700 pessoas, mas só 49 é que foram mesmo hopitalizadas (infelizmente, um deles foi esfaqueado e outro parece que foi empurrado de um edifício de estacionamento depois de uma discussão).
É impossível controlar todos os movimentos de quase um milhão de pessoas. Porque se conseguissem, onde é que estaria a liberdade do mote?!?

No entanto, para continuarem com o evento e controlarem a libertinagem, a organização tem que fazer umas quantas coisas. No acordo que assinou com a cidade, ficou decidido que a festa na rua acaba à meia noite. Que é proibida a venda de bebidas com um teor alcoólico acima de um certo grau (não sei bem quantos, mas o mais alcoólico que se vê à venda nas tendas oficiais é só cerveja!). E não sei se entra no acordo com a cidade, mas, aqui e além, eles espetam com as campanhas de tudo e mais alguma coisa. Painéis luminosos a fazer campanha contra as drogas e o excesso de alcool e a recomendar o consumo de bebidas frescas sem alcool em todos os camiões estão vários papelinhos a dizer: NO DRUGS. O grande patrocinador do evento era uma bebida energética de nome Tojka (lembra-me qualquer coisa!).

Eu pulei, eu dancei (e o meu pé queixa-se disso!!) e não precisei de suplementos duvidosos (e o meu pé queixa-se disso!!), nem roupas ordinárias. Por isso me incomoda muuuuuito que certa gente diga que é uma pouca vergonha, que quem lá vai não tem moral e vai dançar com o capeta, que só os janaditos é que gostam de música daquela... Isso mostra que não têm tolerância nem respeito pela diferença, pelos outros.

Como disse lá em cima, não são todos uns santos, mas nem todos são uns diabos como tentam demonstrar os tais que fazem a parada paralela a dizer que Jesus é a salvação. Acordem para a vida, por favor! Lá porque se gosta de um certo tipo de música, de um certo tipo de festas, não quer dizer que não se tenha amor ao próximo, que não se pense nos mais desfavorecidos (por exemplo, depois do Paul van Dyk actuar, fez-se um apelo à paz no mundo e que se apoiassem as crianças em sofrimento no Corno de África).

Para o ano, se for no dia em que estou a pensar, não vou. Tenho um motivo mais forte. Mas desejo que estes 20 anos de amor, liberdade, tolerância e respeito se mantenham nessa linha, que abram mais mentalidade e se transformem em 25, em 30, em 40 anos... depois vou lá de bengala!! :D

Fotos 1 e 2: reprodução de umdos carros de 1991, na altura eram só meia dúzia e só um é que funcionou realmente!! Ontem eram 29 todos maiores que os simples 25 metros do primeiro do desfile.
Foto 3: Aqui a dança da vassoura também é conhecida...
Foto 4: D pequenino se torce o pepino, ou uma forma de provar que a coisa não é assim tão perigosa, tão prejudicial para a saúde de uma pessoa...
Foto 5: Herr van Dyk em acção

Vídeo: uma mistura da canção Sunday, dos Hurts, feita pelo Paul van Dyk que ouvi ontem pela primeira vez. Tão boa como a original!






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