segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Bens de primeira necessidade

Sinto falta de estar com pessoas inteligentes e cultas. Daquelas com quem falamos e não é preciso explicar coisas básicas de cultura geral e que não ficam espantadas com reflexões básicas sobre coisas básicas, como se fosse a invenção da roda. Preciso de estar com pessoas que não precisem que eu explique o que é o mundo do Big Brother de Orwell para poder falar do diz que (não) disse que existe em tantos sítios. Preciso de gente que saiba que existem vários caminhos de Santiago, para não ter que fazer uma introdução de meia hora só para dizer que o meu irmão fez o Caminho do Norte há tempos. Sinto necessidade de falar com gente que me coloque desafios sem se aperceber. Sinto necessidade de falar sobre livros, mesmo que nunca os venha a ler. Preciso falar sobre medicina ou advocacia, mesmo que nunca venha a exercer. Preciso da falar de música que não percebo ou não gosto, só porque sim. Necessito de gente pelo menos tão inteligente como eu e que me acrescente algo à minha existência intelectual. Preciso de gente que contradiga e questione as coisas que eu diga. Mas que o faça porque tem mesmo algo para contrapor e não porque lhe apetece contradizer ou porque precisa de obter informação complementar para poder atingir onde eu quero chegar.

Longe vai o tempo em que eu me sentava no centro comercial Acqua Roma para estudar e almoçar sozinha e acabava por aparecer companhia que me interrompia aquele estudo, mas que, depois das trivialidades normais de início de conversa, me ensinava qualquer coisa nova, sobre qualquer tema. Sempre à mistura com piadas parvas, gargalhadas altas e pausas para apreciação de todos os moços garbosos que passassem num raio de 50 metros da minha (nossa) mesa. Longe vai o tempo em que eu, mesmo sem estudar o que precisava, acabava por aprender. Longe vai o tempo em que dez minutos de pausa com o M. serviam para falar de flores e trabalho e livros e crise económica e Bayern e Portugal, enquanto gozávamos com os suíços, porque eles são suíços (só alguns estrangeiros que cá vivem é que percebem a piada e não dá para explicar) ou enquanto o M. se espantava com o verniz das minhas unhas dos pés (eu tirava os sapatos e as meias nos dias de maior calor) ou enquanto eu me espantava com a capacidade dele para cantarolar todas as músicas que passavam na rádio (os rádios não paravam de funcionar o dia todo e eu chamava-o juke box nas pausas :D).


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