sábado, 28 de dezembro de 2013

O Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
             (assim assim)
escriturários
              (muitos)
intelectuais
              (o que se sabe)
com certeza a deles
a tua voz talvez
talvez a minha

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo             .
que é justamente
o que o medo quer)
*                     
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos
 
Alexandre O’Neill, Abandono Vigiado, 1960

2 comentários:

Alexandre Martins disse...

Oi, Luísa!
Entrei no seu blog por causa do poema do Alexandre O'Neill; não o conhecia... gostei.

Aliás, acabei vendo seu blog inteiro e achei bastante interessante! Parabéns!!!
Feliz 2014!

Alexandre

Luísa disse...

Olá Alexandre!
Obrigada pelas suas palavras. Volte sempre que lhe apetecer. :)

Devo confessar que também não conhecia este poema. Andava à procura de uma outra coisa que não tinha nada a ver com este poema, mas achei-o tão interessante que resolvi partilhar. :)

Saudações